“DISQUE-SEQUESTRO” OU A BANALIZAÇÃO DA PERVERSIDADE
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“DISQUE-SEQUESTRO” OU A BANALIZAÇÃO DA PERVERSIDADE
Antônio dos Santos Damasceno
damasceno@advocaciadamasceno.com.br
A mais moderna forma de extorsão, através de telefone, foi recentemente batizada de “disque-sequestro”. A “mecânica” do crime já é do conhecimento da população: o bandido faz uma ligação telefônica, simulando o seqüestro de um filho, de um pai, de um irmão ou de qualquer outra pessoa que seja das relações familiares ou pessoais da vítima. E exige, para sua libertação, via de regra o pagamento de importância em dinheiro.
Em 2006 foram registradas mais de sete mil ocorrências desse novo tipo de crime nos órgãos de segurança do Sudeste do Brasil. Um conjunto de fatores, facilmente compreensíveis, deu oportunidade para o aparecimento dessa nova forma de uso da violência e do sofrimento das pessoas para arrancar vantagens financeiras criminosamente.
A banalização da violência, sem que as autoridades brasileiras conseguissem resultados positivos no seu combate, fez com que os seqüestros fossem se tornando comuns em todas as grandes cidades do País. As organizações criminosas, pela mesma razão, conseguiram estruturar-se até dentro dos grandes presídios brasileiros, tornando-se uma espécie de centrais ou de laboratórios de prática criminosa. A democratização do uso de aparelhos de telefone, especialmente os celulares, avanço benéfico e desejado por toda sociedade, tornou-se ferramenta fundamental para esse tipo de extorsão.
Atualmente, os estudos e pesquisas a respeito desse tipo de crime, criado dentro de presídios do Rio de Janeiro, afirmam que já existem bandidos agindo fora dos presídios, aproveitando a criação dos “especialistas” das organizações criminosas. Talvez por isso é que as vítimas, que eram buscadas ao acaso, agora estejam sendo escolhidas e identificadas para a prática do crime. Ainda segundo estatísticas, por enquanto sem rigor científico, cerca de vinte por cento das vítimas chegam a pagar os valores exigidos pelos falsos seqüestradores.
A nova modalidade de crime exige de todos nós mudanças de hábitos nem sempre fáceis. O modo descontraído e despreocupado com que normalmente atendemos a ligações telefônicas precisa ser revisto. Aquele que está chamando é que deve saber exatamente com quem deseja falar. É quem liga que deve identificar-se. Quem atende ao telefone não deve dar informações em primeiro lugar sobre quem está falando, de onde está falando, a quem pertence aquele aparelho de telefone, etc. Principalmente as secretárias, sejam domésticas ou não, que agora já precisam adquirir noções básicas de segurança defensiva.
É bom levar em conta que órgãos oficiais não buscam informações utilizando-se do telefone. Por isso, não podemos passar informações quando alguém diz que é, por exemplo, da Justiça Eleitoral.
As informações passadas a estranhos podem ser utilizadas, mais tarde, para montagem de uma farsa de seqüestro, agora tristemente batizada de “disque-sequestro”, equiparando esse tipo de monstruosidade a um inofensivo “disque-cerveja”. É a banalização da perversidade.
Se você tiver a infelicidade de receber uma ligação, lá pela madrugada, com pedidos de socorro ou choro convulsivo, exigindo resgate, vá com calma. O falso seqüestrado, um filho por exemplo, deve ser procurado antes de qualquer resposta. Pode ser que ele nem saiba do que está acontecendo.
O que oferece vantagem aos bandidos é a sensação de insegurança em que todos nós vivemos, diante das conhecidas deficiências dos serviços de segurança pública. Isso nos torna vulneráveis. Caímos facilmente em desespero, procurando atender rapidamente as exigências dos falsos seqüestradores.
O fato de habitarmos cidades de médio e pequeno porte, do interior, não nos põe a salvo dos crimes antes típicos das grandes cidades. Não existem mais distâncias. Os modernos sistemas de comunicação acabaram com essa barreira. Estamos equipados para receber todo tipo de mensagem, incluindo-se aí a dos falsos seqüestros.
A violência chegou ao mundo antes pacífico e seguro do interior, para tristeza e desalento das nossas comunidades. Já temos “trombadinhas” pelas ruas, assaltos pelas madrugadas, estelionatários passando tudo quanto é tipo de “conto do vigário”, até gangues de assalto a bancos agindo onde até há pouco era pleno sertão de Minas Gerais.
Aproxima-se a inauguração, em Formiga, de um cadeião. Serão trazidos para cá condenados de todos os lados. Esperemos que não seja uma extensão de laboratórios de crimes de penitenciárias do Rio de Janeiro e São Paulo.
Chegou ao fim o tempo da convivência de vizinhança serena e descontraída, que nos permitia manter nossas portas sem tantas trancas, nossas casas sem alarmes, nossos muros sem cercas elétricas; de andarmos na rua com tranqüilidade a qualquer hora, de usarmos serviços bancários sem risco; de sentar-se na esquina com os companheiros, para terminar o papo, pela madrugada, até que cada um seguisse o seu caminho.
A sensação é de que sou um estrangeiro, vindo não de outro lugar, mas de outra civilização. Copiando Margaret Mitchell (1936) de uma civilização que “O Vento Levou”.
publicado em 16 de Julho, 2007